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Racismo e preconceito

Karen Miller

Um exemplo

Theresa, professora de crianças de 3 anos, ouve Elizabeth, uma garota loura e de olhos azuis, dizendo: “Não quero brincar com aquela boneca negra! Ela é feia!”. Nicole, uma tímida afrodescendente, só assiste. Theresa bate na porta da área de brinquedos e cria um papel para si mesma. “Olá, sou sua vizinha. Obrigada por cuidar da minha linda garotinha”, entra na sala e pega a boneca negra. “Como está minha garotinha e sua linda pele parda? Você se divertiu brincando com suas vizinhas hoje?” Mais tarde, com todos reunidos ao redor da mesa do lanche, Theresa mostra as diversas e lindas cores de pele que as crianças têm e faz comentários positivos sobre cada uma delas.

Analisando a questão

As crianças pequenas, em geral, brincam juntas, independentemente da cor da pele. Apesar de notarem diferenças raciais, não costumam dar a mesma importância a elas. Contudo, sua postura está em formação e pode começar a desenvolver uma forma de “pré-preconceito” que acaba se transformando em racismo.

No livro We Can All Get Along, o racismo é definido como “[...] qualquer ação ou postura, consciente ou inconsciente, que subordine um indivíduo ou grupo com base na cor da pele ou na raça”. O racismo diz respeito ao poder e a quem tem acesso a privilégio e oportunidade e está na raiz dos problemas de muitas sociedades.

As crianças formam sua postura com relação à raça logo no começo de sua vida, aprendendo com os adultos que lhes são importantes. O objetivo do educador deve ser aproveitar a curiosidade natural das crianças e ajudá-las a considerar as diferenças interessantes, estimulantes e enriquecedoras entre os indivíduos. Infelizmente, as crianças enfrentarão mensagens e imagens racistas. Se os adultos significativos, como pais e professores, adotarem uma postura proativa contra práticas injustas e prejudiciais, podem prevenir o desenvolvimento de posturas racistas.

É importante não simplificar em demasia a questão quando falamos de diferenças e nos concentramos apenas na raça. A cultura da família, seus níveis socioeconômico e educacional, a presença da família ampla e de pessoas de comunidade, a religião e muitas outras variáveis ajudam a determinar o sentido de individualidade e a autoestima da criança.

Uma coisa é certa: os Estados Unidos estão se tornando um país cada vez mais multirracial. Em nossa sociedade, é essencial que sejamos tolerantes e respeitosos para com pessoas de raças e origens étnicas diferentes.

Considerações sobre o desenvolvimento infantil

Justo e injusto. As crianças aprendem os conceitos de justo e injusto e os sentimentos de mágoa.

Inclusão e exclusão. São temas presentes na infância de qualquer um, independentemente da raça.

A autoestima. É vital para a aprendizagem e o sucesso na vida, pois está conectada à competência. As crianças pequenas devem se sentir valorizadas pelo que são. Um professor que a criança aprecie tem o importante papel de ajudá-la a acreditar que ela é bonita, “adequada” e competente.

Características físicas. As crianças pequenas, ao estabelecerem sua identidade própria, estão aprendendo a distinguir o mundo. Elas notam e falam sobre características físicas, como a cor da pele, a forma dos olhos e o tipo de cabelo.

Percepção de diferenças. Ao contrário da crença popular, as crianças pequenas notam as diferenças físicas associadas à identidade racial.

Palavras relacionadas com a cor da pele. As palavras que os adultos usam são confusas para as crianças. A pele “negra” não é negra, a “branca” não é branca, a “amarela” não é amarela, e a “vermelha” não é vermelha.

Entendendo a geografia. Termos como afrodescendentes, descendentes europeus, descendentes asiáticos e indígenas servem para dar nome à identidade de grupo da criança. As crianças pequenas ainda não entendem o significado geográfico desses termos, mas conseguem entender que eles se referem a um grupo maior, do qual sua família faz parte.

Aceitando pessoas diferentes. À medida que as crianças crescem, cada vez mais procuram amigos que sejam mais parecidos com elas. Isso pode levar a uma exclusão prejudicial das outras pessoas. Se tiverem experiências positivas com todos os tipos de pessoas desde cedo, elas serão mais flexíveis em seu pensamento e terão mais facilidade para aceitar crianças diferentes.

Questões especiais para crianças de herança racial mista

As crianças que têm pais de origens raciais ou culturais diferentes estão se tornando cada vez mais numerosas. Enquanto compartilham processos evolutivos semelhantes com todas as crianças, elas também enfrentam questões específicas.

Para desenvolver sua identidade pessoal, elas precisam identificar as partes relacionadas com a sua origem racial e podem se confundir sobre onde encaixá-las.

Para desenvolver um sentido de identidade claro, as crianças de origem mista precisam que a escola e a sua família falem e apoiem quem elas são de maneira coerente.

Os pais de filhos com origem mista podem ter maneiras diferentes de pensar sobre a identidade de seus filhos. Alguns decidem se concentrar em uma das origens, outros consideram todos os aspectos de sua origem igualmente importantes e preferem que seus filhos tenham uma identidade birracial. Alguns pais não sabem ao certo que identidade preferem que seus filhos desenvolvam e precisam de apoio para tomar suas decisões.

As crianças de origem mista crescem em contextos variados: algumas são criadas por ambos os pais, outras por apenas um dos pais, outras com o apoio das duas famílias amplas, outras de apenas uma família ampla, outras por pais adotivos de origem racial diferente. Todos podem proporcionar uma identidade forte para a criança, mas cada contexto tem sua própria dinâmica e seus desafios específicos.

Quando procurar ajuda

Embora o racismo e o preconceito sejam problemas constantes em nossa sociedade, as seguintes situações indicam quando é necessária uma intervenção específica.

• Os comportamentos negativos e as declarações da criança se tornam problemáticos.
• A criança é excluída. Uma criança exclui outras das brincadeiras por causa de sua cor ou cultura.
• Outras crianças se recusam a sentar perto de uma criança por causa de sua cor ou cultura.
• As crianças dizem coisas racistas, como: “Não gosto dela. Ela tem pele feia” ou “Os olhos dele são estranhos. Ele é esquisito”.
• Ofensas étnicas diretas e xingamentos.

Quem pode ajudar

• Profissionais que trabalham com Educação Infantil com formação no Anti-Bias Curriculum1. Verifique com colegas e associações profissionais locais.

Como lidar com a equipe

• Estimule o treinamento e a conscientização. Essa questão merece atenção especial da equipe.

• Lembre-se de experiências da sua infância. Estimule os membros da sua equipe a pensarem sobre a sua primeira percepção das diferenças raciais e experiências com o preconceito.

• Explore sua própria identidade cultural. Por meio de histórias, estimule a equipe a identificar os valores subjacentes e as regras de comportamento que aprenderam com suas famílias e os aspectos de sua cultura que lhes dão força e apoio.

• Discuta incidentes. Em reuniões da equipe, estimule as pessoas a trazerem problemas difíceis que encontraram, especialmente se não tiveram certeza de como agir. Discutir os incidentes em um ambiente solidário pode proporcionar ideias para as pessoas usarem em situações futuras.

• Não reforce os estereótipos. À medida que planeja temas e atividades curriculares, certifique-se de não reforçar os estereótipos. Proteja-se contra imagens estereotipadas ao comprar materiais e decorações para a sala de aula. Preste atenção nessas imagens, especialmente em livros e decorações para as festas.

• Trabalhe diariamente com essa questão. O combate ao racismo e ao preconceito precoces não deve ser um tema ou uma unidade, mas uma filosofia transversal, entremeada em suas interações cotidianas com as crianças.

Como lidar com as crianças

• Use situações espontâneas de aprendizagem. Fique alerta para comentários que revelem mal-entendidos raciais por parte das crianças com relação a elas mesmas ou a outras pessoas. Faça uso desses momentos educativos espontâneos. Não os ignore.

• Intervenha imediatamente. As declarações preconceituosas devem ser imediatamente desmentidas por um adulto. “Timmy, ouvi você dizer que os olhos de Mai parecem ‘esquisitos’. Os olhos de Mai têm a forma dos olhos da família dela e dos olhos de milhões de pessoas que vivem na região do mundo de onde a família dela veio. Eles são bonitos e são os olhos certos pra ela.”

• Não está certo magoar as pessoas. Alerte as crianças quando os comentários delas ferirem os sentimentos de alguém e lembre-as de que não está certo dizer essas coisas.

• Proíba insultos raciais. Quando você sentir que os comentários das crianças são insultos raciais visando magoar outra criança propositalmente, trate o assunto como trataria qualquer outra forma de agressão. Intervenha, conforte a vítima, discuta a situação e fale com firmeza que não está certo magoar as pessoas com palavras ou atitudes na sala de aula ou em casa.

• Admire as diferenças. Fale abertamente e com interesse e admiração sobre as diferentes cores de pele, olhos e cabelo das pessoas. Se você ignorar a questão da raça ou mudar o assunto quando ele surgir, as crianças podem entender que é algo a evitar ou ter vergonha.

• Transmita informações positivas e corretas. Mesmo que você não ouça qualquer comentário sobre a identidade racial, levante a questão. As crianças podem ouvir comentários raciais em outro local ou momento. Elas precisam de informações positivas e corretas.

• Use bonecos e fantoches com cores de pele diferentes para conversar com as crianças sobre como se magoam quando alguém não as deixa brincar ou faz comentários maldosos sobre a cor da sua pele. As crianças podem falar sobre como aquilo foi injusto. Esse tipo de atividade promove a empatia em um ambiente neutro, sem deixar ninguém embaraçado.

• Seja sensível aos sentimentos das crianças. À medida que se aproximam da idade da escola fundamental, elas tentam não ser diferentes. Se apenas uma criança do grupo for de uma raça diferente, evite isolá-la. Ao contrário, fale sobre a cor da pele de todos, fazendo comentários positivos a respeito.

• Demonstre admiração por cores de pele diferente. Colecione fotos e imagens de revistas com pessoas com cores de pele diferentes. Faça um álbum ou uma colagem que você possa olhar com as crianças com frequência. Deixe-as comparar a pele delas com a das fotos.

• Observe a grande variedade de tons de pele. Em salas de aula com crianças descendentes de europeus, há uma grande variedade de tons de pele, olhos e cabelos. Amplie a discussão, incluindo outros tipos de características raciais que as pessoas possam ter.

• Convide pessoas de raças diferentes para visitar a sua classe, sobretudo se todas as crianças forem do mesmo grupo racial. Pergunte se esses adultos deixariam que as crianças tocassem em seu cabelo, comparassem a cor da sua pele e falassem abertamente com eles sobre as diferenças que enxergam. Se esses visitantes puderem fazer algo divertido com as crianças, como tocar um instrumento, cozinhar algo ou brincar com blocos, elas aprenderão rapidamente que não são diferentes dos outros.

• Traga fotografias. Peça para as crianças trazerem fotografias de sua família nuclear e outros parentes, se possível.

• Reúna fotografias mostrando olhos de formas e cores diferentes. Seu interesse e sua compreensão pela variedade promoverão posturas positivas nas crianças.

• Faça desenhos do corpo. Faça um desenho do corpo para cada criança. Deixe que elas escolham as cores do lápis ou a tinta que consideram mais parecidas com a cor de sua pele, seus olhos e cabelos. Coloque os desenhos na parede, com um título: Somos de muitas cores.

• Reúna amostras ou fotografias de diferentes tipos de cabelo. Talvez as pessoas que você conhece possam doar pedaços do cabelo para um pôster. Se não for possível, você pode fazer um álbum com fotografias, mostrando muitas cores e texturas de cabelo.

• Os materiais da sala de aula devem refletir as crianças. As crianças devem enxergar a sua raça e a de outras crianças refletida nos pôsteres, livros, brinquedos e outros materiais usados na sala de aula.

• Reúna imagens de adultos de diferentes raças trabalhando. Inclua todos os tipos de trabalho e use as imagens para fazer um álbum sobre ocupações.

• Colecione livros infantis que tenham ilustrações bonitas de crianças de raças diferentes como os principais personagens, mas que, antes de tudo, seja boa literatura infantil. Após lerem a história juntos, pergunte às crianças: “Vocês não acham que deve ser bom brincar com ela? Não seria divertido se ela estivesse em nossa classe?”.

• Intervenha quando for necessário. Se você ouvir uma criança dizendo que as cores marrom ou preta são cores feias, reúna coisas bonitas que sejam pretas ou marrons. Mostre às crianças, por meio de suas ações e palavras, que você considera todos os tons de preto e marrom bonitos.

• Esclareça concepções erradas. As crianças podem ter concepções erradas sobre a cor da pele e pensar que ela foi pintada ou colorida ou, geralmente, que a pele escura está suja. Você deve corrigir esses enganos. Uma explicação simples é que as pessoas adquirem a cor de sua pele do pai e da mãe biológicos.

• Evite explicações complicadas. Talvez seja difícil explicar a cor da pele para crianças pela geografia ou pela melanina. Porém o livro All the Colors We Are é um bom começo. Introduzir o conceito agora não fará mal, e as crianças entenderão melhor quando estiverem maiores.

 

• Converse sobre adoção. Quando uma criança adotada for de uma raça diferente da de seus familiares, seus alunos podem precisar de uma explicação. Diga que a criança adotada nasceu de pais parecidos com ela.

Como lidar com os pais

É importante que os pais saibam como você lida com questões de preconceito racial com as crianças, para que as mensagens de casa sejam coerentes com o que as crianças estão ouvindo na escola ou na creche.

• Transmita a sua filosofia. Seja por intermédio de um boletim, seja em uma reunião com os pais, explique que você acredita que devemos falar sobre todas as raças de modo positivo e abordar questões relacionadas com as crianças. O vídeo Anti-Bias Curriculum é uma ótima ferramenta para introduzir o tema.

• Faça uma reunião de pais sobre maneiras de prevenir o preconceito. Compartilhe com eles algumas questões e dúvidas comuns que surgem na sala de aula de Educação Infantil e reflita sobre as respostas adequadas. Descreva como as crianças desenvolvem atitudes negativas e concepções erradas sobre raça e sugira o que os adultos podem fazer para superá-las. Descreva também estratégias para promover a tolerância nas crianças, como criar oportunidades para interações positivas com pessoas de raças diferentes e conversar com as crianças quando observar exemplos de injustiça e preconceito.

• Consulte o Anti-Bias Curriculum. O capítulo 11 do Anti-Bias Curriculum sugere estratégias para uma reunião com os pais.

• Promova posturas positivas. Alguns pais podem responder: “Eles são tão pequenos e inocentes. Precisamos incomodá-los com isso tão cedo?”. Você deve dizer aos pais que crianças com até 2 anos já notam e comentam as diferentes cores de pele e outras características raciais e que agora é a hora de promover posturas positivas para com pessoas que possam parecer diferentes.

• Use fotos da família. Estimule os pais a enviarem fotos da família para que as crianças possam ver que herdaram sua cor de sua própria família.

• Seja coerente. Pergunte aos pais como eles explicam a etnia para seus filhos, para que você possa ser coerente. Seja sensível às necessidades de crianças adotadas e daquelas de origem mista.

• Convide os pais a visitarem a sala de aula. Convide pais que representem diferentes raças e culturas para visitarem a sala de aula e interagirem com as crianças.

• Estimule os pais a aprenderem a lidar com comentários prejudiciais. Envolva-os independentemente de seu filho ser a vítima ou o agressor. Descreva o que aconteceu e como você respondeu. Tente pensar em conjunto sobre qual é a melhor maneira de lidar com a situação. Discuta como os pais lidarão com essa questão em casa, para que vocês possam reforçar as iniciativas uns dos outros.

• Lembre-se de que poucos problemas estão relacionados apenas com a raça. Tente não atribuir os problemas da criança ou da família à sua origem racial ou cultural. Na realidade, poucos de seus problemas estarão relacionados com a raça ou a cultura.

Karen Miller
Mestre em Desenvolvimento Humano pela Pacific Oaks College em Pasadena, Califórnia. Consultora sobre cuidados na Educação Infantil.
Fonte: MILLER, Karen. Educação Infantil: como Lidar com Situações Difíceis. Porto Alegre: Artmed, 2008.

¹ N. de R. T. O Anti-Bias Curriculum é um material produzido por Louise Derman-Sparks. Aborda questões referentes à diversidade cultural e étnica, ao sexismo, ao racismo e à homofobia, entre outras. Trata-se de propostas curriculares antidiscriminatórias que visam ao empoderamento das crianças.





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