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Prática de Valores na escola

A educação em valores, que se desenvolve na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas escolas, nas manifestações culturais, nos movimentos e nas organizações sociais, é uma questão fundamental da sociedade atual, imersa numa rede complexa de situações e fenômenos que exige, a cada dia, intervenções sistemáticas e planejadas dos profissionais da educação escolar.

Entre as diferentes ambiências humanas, a escola tem sido, historicamente, a instituição escolhida pelo Estado e pela família como o melhor lugar para o ensino–aprendizagem dos valores, de modo a cumprir, em se tratando de educação para a vida em sociedade, a finalidade do pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mundo do trabalho.

Sendo assim, caberá às instituições de ensino a missão, por excelência, de ensinar valores no âmbito do desenvolvimento moral dos educandos, através da seleção de conteúdos e metodologias que favoreça temas transversais (Justiça, Solidariedade, Ética, etc.) presentes em todas as matérias do currículo escolar, utilizando-se, para tanto, de projetos interdisciplinares de educação em valores aplicados em contextos determinados, fora e dentro da escola.

O que são, afinal, os valores? Que valores devem ser estudados e desenvolvidos na escola? Entre o que a escola ensina de valores, há coerência com o que a sociedade requer dos homens e das mulheres? Além de tentarmos responder as questões acima levantadas, pretendemos, neste artigo, trazer exemplos e sugestões bem concretos para o trabalho do professor em sala de aula, para que não se limite a ensinar valores, mas a praticá-los e a se tornar, assim, um educador em valores.

A educação em valores é uma exigência da sociedade atual, inserida no mundo globalizado e marcada, no início deste século, por tantas mudanças tecnológicas e novos paradigmas políticos, culturais e educacionais, ora debatidos por diferentes agentes sociais. Temas como Ecologia, Educação Sexual, Direitos e Deveres do Cidadão, Ética na Política e na Vida Pública, a cada dia, são pautas de congressos, seminários, encontros internacionais, nacionais e locais, levando-nos a crer que o currículo escolar, sem dúvida, ficou defasado, ou melhor, não conseguiu acompanhar a velocidade de transformações do mundo pós-industrial.

No caso do Brasil, o currículo escolar realmente ficou e está defasado, se compararmos o que ensinamos com o que os Parâmetros Curriculares Nacionais, produzidos nos anos 90, requerem dos professores e alunos. No entanto, a razão de ser da escola, a de educar os alunos formalmente, não é uma tarefa descartada pela sociedade, apesar da influência da mídia eletrônica na formação cognitiva e de valores dos alunos. Também não perdeu tanto espaço assim para a sociedade da informação.

Por estar inserida em determinada comunidade, a escola traz para o seu interior os conflitos, as aflições e as mais diversas demandas comunitárias que levam professores, alunos e gestores escolares a criarem espaços, em seus projetos pedagógicos, para que as crianças e os adolescentes discutam e opinem sobre suas inquietações e aspirações pessoais e coletivas. É exatamente neste momento, quando os agentes educacionais criam espaços, ocasiões, fóruns para discussão sobre violência urbana, meio ambiente, paz, família, diversidade cultural, eqüidade de gênero e sociedade informatizada, que a educação em valores começa a ser desenhada e vivenciada como processo social que se desenvolve na escola.

Não é uma tarefa fácil abordar a questão dos valores na educação escolar. E sabemos o porquê. A Pedagogia tradicional levou-nos a acreditar (e sua influência ainda não desapareceu totalmente do meio escolar), por muitos séculos, que a principal tarefa da escola era a de transmitir conteúdos escolares. É um modelo pedagógico que não se enquadra mais às exigências do mundo moderno.

A educação escolar não se restringe mais, como no passado, à mera transmissão de conhecimentos, em que a atividade de ensinar era centrada no professor, detentor dos saberes, e no aluno, um mero recebedor da matéria. Na sociedade atual, com a ampliação das ambiências de formação escolar, o aluno passa a ser o centro do processo didático-pedagógico, e a educação escolar, agora, entendida como processo de desenvolvimento físico, intelectual e moral do educando.

A educação em valores, embora tenha sido considerada, pelo menos até o século XIX, implicitamente, parte do currículo oculto das instituições de ensino, ganha terreno fértil, no ambiente escolar, a partir da segunda metade do século XX, quando a sociedade, através da legislação educacional (por exemplo, a chamada Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), reconhece no professor, no aluno e na família sujeitos do processo de formação escolar.

Retomando a proposta de uma prática de valores na escola, diríamos que, para que a educação em valores seja uma realidade educacional, primeiro terá de passar por dois componentes do processo didático: o ensino e a instrução de valores. Para a Pedagogia, palavras como educação, ensino e instrução são elementos distintos na Didática, embora a maioria das pessoas as tomem como sinônimos. Vamos, então, às diferenças entre elas e observaremos suas implicações para uma educação em valores ou pedagogia de valores.

Quando nos referimos à educação em valores, estamos tomando essa expressão como processo social, no seio de uma determinada sociedade, que visa, sobretudo, através da escola, levar os educandos à assimilação dos valores que, explícita ou implicitamente, estão presentes, como já se disse, no conteúdo das matérias, nos procedimentos e nas atitudes dos professores, colegas de sala, pais de alunos e nas experiências humanas acumuladas no decorrer da história, tendo em vista a formação dos indivíduos enquanto cidadãos.

Se a escola deixa de cumprir o seu papel de educadora em valores, o sistema de referenciação ética de seus alunos estará limitado à convivência humana, que pode ser rica, em se tratando de vivências pessoais, mas pode estar também carregada de desvios de postura, atitudes de comportamento ou conduta. E mais: quando os valores não são bem formais ou sistematicamente ensinados, podem ser encarados pelos educandos, principalmente para aqueles que não os vivenciam, como simples conceitos ideais ou abstratos sejam por simulações de práticas sociais ou vivenciados no cotidiano.

Por isso, a escola não pode, pelo menos nos onze anos (oito anos de Ensino Fundamental e três anos de Ensino Médio, na atual estrutura da Educação Básica, em que as crianças e os jovens ficam a maior parte do dia na escola), deixar de ensinar explicitamente a prática de valores. Como diz o filósofo L. Althusser, em seu livro Aparelhos Ideológicos do Estado, a sociedade burguesa estabeleceu como seu aparelho de Estado n° 1 e, portanto, dominante, o aparelho escolar, que, na realidade, substitui o antigo aparelho ideológico de Estado dominante — a Igreja — em suas funções.

O trabalho explícito com a prática de valores pode advir das atividades docentes e curriculares no interior da sala de aula. Durante uma aula de Língua Portuguesa, por exemplo, o professor comprometido com a educação em valores não se limitará a indicar ou solicitar de seus alunos uma lista de palavras como justiça, dignidade e solidariedade, para exemplificar os substantivos abstratos, como assinalam as gramáticas escolares. Mais do que abstratas, essas palavras, na sociedade, são categorias que se aplicam às práticas sociais, isto é, às atividades socialmente produzidas e, ao mesmo tempo, produtoras da existência social.

A noção de solidariedade, para os educadores em valores, não deve ser ensinada como simples substantivo feminino, reduzindo-a a um conceito gramatical ou metalingüístico, e sim como uma prática contra injustiça ou injúrias que outros estejam sofrendo, no âmbito político ou comunitário.

Há ensino de valores quando o professor, ao preparar suas aulas ou atividades curriculares, planeja, organiza, redireciona e avalia os temas transversais que não são, vale advertir, novas matérias, mas assuntos que atravessam as diferentes áreas do currículo escolar. Não há, portanto, necessariamente, aula, com dia e horário previamente estabelecidos para o ensino de valores. Ao contrário, o ensino de valores decorre de ocasiões que surgem ao acaso — como um flagrante de uma cola durante a realização de uma prova em sala de aula ou de uma briga entre alunos na hora do recreio — ou de ocasiões já previstas na proposta pedagógica para o bimestre ou semestre e, dependendo da sensibilização do professor, de um tema considerado relevante para a educação moral dos alunos.

Para que a educação em valores se realize, há, pois, necessidade de ser considerada no plano de ensino do professor, de logo, como objetivo geral da disciplina, em nível de transversalidade. Para que a prática de valores seja uma realidade, o educador terá de se organizar, didaticamente, para a instrução de valores, dentro e fora da sala de aula. Assim, só podemos dizer que um aluno aprendeu valores quando, após a ministração de conteúdos em sala, os professores, na escola, em diferentes ocasiões, e os pais, no lar, observam que seus alunos ou filhos não apenas apresentam melhor rendimento escolar, mas diminuíram os conflitos interpessoais, estão mais abertos à socialização e mais efetivamente assimilaram e integraram valores, atitudes e normas na prática social, de modo que os valores assimilados tenderão a acompanhá-los por toda a vida.

Em substância, podemos dizer que educamos em valores quando os alunos se fazem entender e entendem os demais colegas; aprendem a respeitar e a escutar o outro; aprendem a ser solidários, a ser tolerantes, a trabalhar em equipe, a compartilhar ou socializar o que sabem, a ganhar e a perder, a tomar decisões, enfim, é assim o resultado da educação em valores na escola: ajudar os alunos a se desenvolverem como pessoas humanas e fazer ser possível, visível ou real o desenvolvimento harmonioso de todas as qualidades do ser humano.

Que valores devem ser ensinados na escola

A educação em valores está presente em todas as disciplinas do currículo escolar. Para educar em valores, é necessário que o professor organize seu plano de ensino em atividades lúdicas, reflexivas e conceituais sobre temas transversais. Apontaremos, na tabela da página seguinte, dez temas transversais, por ordem alfabética, com seus conceitos básicos, que podem ser trabalhados na Educação Infantil, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio.


Decálogo da Educação em Valores
Temas transversais Acepções
1. Autonomia Refere-se ao valor que reconhece o direito de um indivíduo tomar decisões livremente, ter sua liberdade, independência moral ou intelectual. É a capacidade apresentada pela vontade humana de se autodeterminar segundo uma norma moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou externo.
2. Capacidade de convivência Valor que desenvolve no educando a capacidade de viver em comunidade, na escola, na família, nas igrejas, nos parques, enfim, em todos os lugares onde se concentram pessoas, de modo a garantir uma coexistência interpessoal harmoniosa.
3. Diálogo Valor que reconhece na fala um momento de interação entre dois ou mais indivíduos, em busca de um acordo.
4. Dignidade da pessoa humana Valor absoluto que tem cada ser humano. A pessoa é fim, não meio. A pessoa tem valor, não preço.
5. Igualdade de direitos Valor inspirado no princípio segundo o qual todos os homens são submetidos à lei e gozam dos mesmos direitos e obrigações.
6. Justiça Entre os temas transversais, é o valor mais forte. No educando, manifesta-se quando o mesmo é capaz de perceber ou avaliar aquilo que é direito, que é justo. É princípio moral em nome do qual o direito deve ser respeitado.
7. Participação social Valor que se desenvolve no educando à medida que o torna parte da vida em sociedade e leva-o a compartilhar com os demais membros da comunidade conflitos, aflições e aspirações comuns.
8. Respeito mútuo Valor que leva alguém a tratar outrem com grande atenção, profunda deferência, consideração e reverência. A reação de outrem será no mesmo nível: o respeito mútuo.
9. Solidariedade Valor que se manifesta no compromisso pelo qual as pessoas se ajudam umas às outras e, cada uma delas, a todas, particularmente diante dos pobres, dos desprotegidos, dos que sofrem, dos injustiçados, com o intuito de confortar, consolar e oferecer ajuda.
10. Tolerância Valor que se manifesta na tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas.




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